Das fronteiras abertas aos que mais necessitam

O problema da “invasão’’ de haitianos no Brasil e pessoas de outras nacionalidades pela fronteira Norte, em busca de emprego, é mais um indicador do avanço da economia brasileira. Há quem diga que os “coiotes’’, agenciadores de imigrantes ilegais especializados em atuar na fronteira do México com os Estados Unidos, estejam na área vislumbrando um novo e mais fácil mercado.

O problema de imigrantes nestas fronteiras não é recente, aconteceu também na região Norte, na época do Ciclo da Borracha, que ajudou a definir as fronteiras atuais do Brasil. No entanto, a questão é quase inédita para o Governo Brasileiro devido à distância temporal dos fatos. Portanto, é preciso que nossas autoridades passem a agir com rapidez numa questão em que se misturam aspectos de direitos humanos, saúde, segurança e, além de tudo, cidadania.

Na outra ponta do problema do mesmo novelo de lã, as mudanças climáticas começam a criar um novo tipo de refugiado, o ambiental. Especialistas alertam que o degelo dos Andes aumentará a escassez de água e trará para o Brasil pessoas expulsas por desastres ambientais em países da América do Sul.

No meio de tanta linha, há em nossa história registros recorrentes de facilitação da entrada de migrantes europeus e, ou mesmo, um mecanismo capaz de impedir a de negros. A tese da repetição pode ser confirmada na última semana, quando o governo anunciou medidas para restringir a migração de haitianos, mas passou a estudar formas de facilitar a vinda de trabalhadores qualificados provenientes de países da Europa.

Um processo de imigração seletiva, que priorize a drenagem de cérebros, mas estabeleça limites para os estrangeiros que chegam fugindo da pobreza é a realidade de nossa política migratória atual. Esta é uma máxima indiscutível neste momento.

Para um país que já teve milhares de cidadãos enxotados da Europa e Estados Unidos, independente de questões econômicas, chegou à hora de se mostrar que somos diferentes de outros países, quando se trata do fator humano. A postura brasileira deve ser a de tratar com generosidade, mas, se é para dar prioridade a alguém, vale lembrar que, no caso dos haitianos, se trata de uma emergência humanitária.

João Baptista de Lacerda previu, em 1911, em Londres, que em 100 anos os negros e indígenas estariam “extintos’’no Brasil. Portanto, a idéia de barrar a entrada de africanos, ou melhor, de negros, faz parte do processo.

Lamentavelmente ainda tem gente que pensa isso hoje.

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