POESIA NA SEXTA - EZEQUIEL NEVES - ZECA


CODINOME BEIJA-FLOR

(Cazuza / Ezequiel Neves / Reinaldo Arias)

Pra que mentir
Fingir que perdoou
Tentar ficar amigos sem rancor
A emoção acabou
Que coincidência é o amor
A nossa música nunca mais tocou...
Pra que usar de tanta educação
Pra destilar terceiras intenções
Desperdiçando o meu mel
Devagarzinho, flor em flor
Entre os meus inimigos, beija-flor
Eu protegi o teu nome por amor
Em um codinome, Beija-flor
Não responda nunca, meu amor
Pra qualquer um na rua, Beija-flor
Que só eu que podia
Dentro da tua orelha fria
Dizer segredos de liquidificador
Você sonhava acordada
Um jeito de não sentir dor
Prendia o choro e aguava o bom do amor
Prendia o choro e aguava o bom do amor



POR QUE A GENTE É ASSIM?

(Frejat/ Ezequiel/ Cazuza)


Mais uma dose?
É claro que eu estou a fim
A noite nunca tem fim
Por que que a gente é assim?

Agora fica comigo
E vê se não desgruda de mim
Vê se ao menos me engole
Mas não me mastiga assim

Canibais de nós mesmos
Antes que a terra nos coma
Cem gramas, sem dramas
Por que que a gente é assim?

Mais uma dose?
É claro que eu tô a fim
A noite nunca tem fim
Baby, por que a gente é assim?

Você tem exatamente
Três mil horas pra parar de me beijar
Hum, meu bem, você tem tudo
Pra me conquistar

Você tem exatamente
Um segundo pra aprender a me amar
Você tem a vida inteira
Pra me devorar
Pra me devorar!

Mais uma dose?
É claro que eu tô a fim
A noite nunca tem fim
Por que a gente é assim?


DECLARE GUERRA

(Frejat/Ezequiel Neves/Guto Goffi)

Vivendo em tempo fechado
Correndo atrás de abrigo
Exposto a tanto ataque
Você ta perdido

Nem parece o mesmo
Tá ficando pirado
Onde você encosta dá curto
Você passa, o mundo desaba

E pra te danar
Nada mais dá certo
E pra te arrasar
Os falsos amigos chegam
E pra piorar
Quem te governa não presta

Declare guerra aos que fingem te amar
A vida anda ruim na ladeia
Chega de passar a mão na cabeça
De quem te sacaneia

E pra se ajudar
Você faz promessas
E pra piorar
Até o papa te esquece
E pra te arrasar
Só o inferno te aceita


NÃO AMO NINGUÉM

(Frejat/Cazuza/Ezequiel)

Eu ontem fui dormir todo encolhido
Agarrando uns quatro travesseiros
Chorando bem baixinho, bem baixinho, baby
Pra nem eu, nem Deus ouvir
Fazendo festinha em mim mesmo
Como um nenem, até dormir

Sonhei que eu caía do vigésio andar
E não morria
Ganhava três milhões e meio de dólares
Na loteria
E você me dizia com a voz terna,
Cheia de malícia
Que me queria pra toda vida

Mal acordei já dei de cara com a tua
No porta-retrato
Não sei por que toda manhã parece um parto
Quem sabe depois de um tapa?
Eu hoje vou matar essa charada!

Se todo alguém que ama
Ama pra ser correspondido
Se todo alguém que eu amo
É como amar a lua inacessível
É que eu não amo ninguém
Não amo ninguém
Não amo ninguém, parece incrível
Não amo ninguém
E é só amor que eu respiro


BABY SUPORTE

(Barros/Pequinho/Ezequiel/Cazuza)

Amor escravo de nenhuma palavra
Não era isso que você procurava
Não viu no fundo da retina a mágoa
A luz confusa onde o tudo é o nada
A esperança está grudada na carne
Que diferença há entre o amor e o escárnio?
Cada carinho é o fio de uma navalha
Oh! Baby, não chore
Foi apenas um corte
A vida é bem mais perigosa
Que a morte
Suporte, Oh! Baby, suporte
Suporte, Baby, suporte


TORRE DE BABEL

(Frejat/Ezequiel Neves/Guto Goffi)

Se eu chego
Você tá saindo
A gente ama odiando
Mas não em deixe sozinho

Me dá pão com veneno
Jurando fidelidade
Sua verdade não me engana
Nesse tempo de maldade

Que piração
Tou na terra ou no céu ?
Ninguém se entende
Nessa Torre de Babel

O mundo tá acabando
Não vai sobrar quase nada
Nossa hora tá chegando
E ainda fazem piada

Apertando o cerco
Você se desespera
Não há remédio
Você tá na terra


AGORA TUDO ACABOU

(Frejat / Ezequiel Neves)

Ela passou noites
E mais noites sem pintar
Dessa vez exagerou
Eu não posso perdoar
Agora a minha vida mudou.
Eu acordo ela não está
Com certeza está com outro
Só pra me sacanear

Porquê eu gostava dela
E eu já não gosto mais

Anda com outros caras
Circulando pela cidade
Gastando o meu dinheiro
Aproveitando a pouca idade
Pra outros animada
Pra mim sempre cansada
Mas uma hora a mesa vira
Tudo tem de mudar

Porquê eu gostava dela
E eu já não gosto mais
Porquê eu gostava dela
Mas agora tudo acabou

Antes era diferente
Se eu não tava legal
Me servia o café na cama
Como ela não tinha igual
Ser tratado assim é fogo
Eu cansei de avisar
Eu abrir o jogo
Eu vou ter que escrachar

Porquê eu gostava dela
E eu já não gosto mais
Porquê eu gostava dela
Mas agora tudo acabou


BEIJOS DE ARAME FARPADO

(Dé/Sérgio Serra/Ezequiel Neves)


Naqueles dias
Todo dia eu renascia
Na pele dos teus lábios
E trazia comigo uma oração
Pros tumultos da paz
Porque naqueles dias
Eu te amava demais

Eram dias de pura luz
Refletindo nos metais
E pelos nossos beijos
Caravelas e língua passeavam
Em delírios fluviais
Amor à luz de velas
Mensagem na garrafa perdida
Vinda na saliva de outros carnavais

Mas hoje em dia meu amor
Nossos beijos tem sabor enferrujado
E nos machucam a boca
Feito arame farpado

Meus cabelos já cresceram
E eu não vi passar
Nem pétala, nem rastro
Daqueles dias
Sobre os nossos ombros, nunca mais pousaram os anjos

Apenas os escombros
Sobre os nossos ombros
Nunca mais pousaram os anjos
Apenas os escombros


ODEIO-TE MEU AMOR

(Guto Goffi / Ezequiel Neves)

Durante séculos você me abraça
Parece sempre a primeira vez
Tanta carência me sufoca
É um pavor
Quero deixar bem claro

Odeio-te meu amor!

Você parece este planeta exausto
Será que amar é tão ruim assim ?
Minha piscina de cacos de vidro
Mergulho fundo, sou um faquir feliz
Mergulho fundo, sou um faquir feliz

Por que a gente é esse horror ?
Quero deixar bem claro

Odeio-te meu amor!

As montanhas tem segredos
São outros planetas
Vamos tentar, ainda é tempo
Me dê a mão, vamos ficar a sós
Um beijo bem molhado, vamos cuidar de nós

Freud é tão simples

Odeio-te meu amor!
Aprendemos a ser livres
Que fogueira é essa ?
Estamos na inquisição ?
Que fogueira é essa ?
Odeio-te meu amor!


EXAGERADO

(Cazuza / Ezequiel Neves / Leoni)

Amor da minha vida
Daqui até a eternidade
Nossos destinos
Foram traçados na maternidade

Paixão cruel desenfreada
Te trago mil rosas roubadas
Pra desculpar minhas mentiras
Minhas mancadas

Exagerado
Jogado aos teus pés
Eu sou mesmo exagerado
Adoro um amor inventado

Eu nunca mais vou respirar
Se você não me notar
Eu posso até morrer de fome
Se você não me amar

E por você eu largo tudo
Vou mendigar, roubar, matar
Até nas coisas mais banais
Prá mim é tudo ou nunca mais

Exagerado
Jogado aos teus pés
Eu sou mesmo exagerado
Adoro um amor inventado

E por você eu largo tudo
Carreira, dinheiro, canudo
Até nas coisas mais banais
Prá mim é tudo ou nunca mais

Exagerado
Jogado aos teus pés
Eu sou mesmo exagerado
Adoro um amor inventado

Jogado aos teus pés
Com mil rosas roubadas
Exagerado
Eu adoro um amor inventado

SOBRE O AUTOR










Ezequiel foi produtor da gravadora Som Livre, das Organizações Globo, presidida por João Araújo, pai do cantor Cazuza. Junto com o também produtor Guto Graça Mello, foi mentor do cantor e de sua banda, o Barão Vermelho. Chegou a escrever para a revista Rolling Stone. Ezequiel acompanhou a carreira do Barão, do qual produziu todos os discos desde o início, e também foi parceiro musical de Cazuza.

Sua morte aconteceu exatamente no aniversário de 20 anos do passamento de seu grande amigo e pupilo musical, Cazuza. Zeca, como era conhecido, sofria de um Câncer no cérebro e faleceu na Clínica São Vicente, na Gávea, Zona Sul do Rio de Janeiro.

Jornalista, compositor e produtor musical Ezequiel Neves escreveu há dois anos a biografia do Barão Vermelho em parceria com o jornalista Rodrigo Pinto e com um dos fundadores do grupo Guto Goffi.

Na época do lançamento, Neves falou com a Folha sobre sua história com a banda. Muito bem humorado, ele contou episódios que presenciou.

Entre os quais um em que esculhambou o tecladista Maurício Barros por conta de sua influência de rock progressivo. "Nossa, tantos sintetizadores... Esse som parece uma penteadeira de bicha! Vamos gravar um pianinho mais stoneano."

Na década de 1970, Ezequiel Neves foi o mais influente crítico de música pop do Brasil. No meio musical, ele era conhecido como Zeca Jagger - apelidado desta maneira por conta de sua devoção ao rock clássico e aos Rolling Stones. As letras ou poemas de Ezequiel, nunca soube distinguir bem a diferença, traduzem o posicionamento e o jeito de levar a vida pós-ditadura militar no Rio de Janeiro, mais especificamente no Baixo Leblon.

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